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Coringa ( Joker, 2019 ) - Crítica

1 mês atrás - Visto 156 vezes

Eu adoro estudos de personagem que trabalham bem o interior da figura para fazer um comentário extrínseco ao mesmo. Quando bem feito, quase sempre temos uma obra memorosa nas mãos.

 

Depois de fazer história em cada uma de suas abordagens, para o bem e para o mal, o Palhaço do Crime finalmente ganhou seu filme de origem pelas mãos de Todd Philips, anteriormente conhecido por comédias como Starsky e Hucth e Se Beber Não Case.

 

Observando a filmografia do diretor, compreende-se o a relação íntima que ele tem com a comédia e só assim se tem uma ideia sobre como ele alcançou o feito de virar o gênero do avesso na construção deste filme. Trata-se de um dramático e minucioso estudo de personagem que curiosamente encontra sua tragédia na margem deixada pela subjetividade do cômico, estendido a um pertinente comentário social sobre a falta de empatia, que por sua vez, sintomatiza uma espécie de “doença mental social”. Não é tão complexo quanto parece, continuemos por partes.

 

Coringa conta a história de Arthur Fleck, um aspirante a comediante falido, assolado por uma combinação de transtornos mentais, e sofrendo as consequências de viver em uma sociedade que “espera que ele se comporte como se não os tivesse”. Um transtorno que o faz manifestar gargalhadas que não condizem com o seu verdadeiro humor em momentos inoportunos, uma a depressão e uma psicose que alucina os desejos do protagonista (semelhante à de Patrick Bateman em ‘Psicopata Americano’) são os principais catalizadores para a sua transformação no icônico vilão da DC.

 

Para construir este personagem, Joaquín Phoenix (Ela, Gladiador) e o diretor Todd Phillips utilizam de artifícios para mergulhar seu público na mente de seu protagonista, o primeiro desenvolvendo-o em todas as minúcias possíveis, linguagem corporal, voz, ações e reações. O ator constrói cena a cena todos os detalhes necessários para tornar o personagem crível e aproximá-lo do público em nível substancial e interno, na melhor performance de sua carreira, provando seu posto entre os melhores da geração.

 

Já o diretor esculpe a identidade imagética do filme acompanhando o fio estabelecido pela narrativa, mergulhando seu público no psicológico de seu protagonista. Para tal, se utiliza de planos longos e movimenta a câmera como o estado emocional de Arthur Fleck pede, tornando-a membro do convívio com ele e apresentando uma postura ora intima ora intrusiva, que em conjunto com a trilha torna a imersão praticamente infalível.

 

Na mesma linha, trabalhando com o cinematógrafo Lawrence Sher (Godzilla 2: Rei dos Monstros, Se Beber não Case), exibe um crescente na luminosidade das cores, saindo de tons lívidos no inicio para as cores fulgurantes do final. Para além disso, estabelecem uma interessantíssima dinâmica de fracionamento da luz nos quadros, que cresce gradativamente para iluminar totalmente a face do protagonista na cena da sua libertação, ou seria derrocada?

 

Mostrando inicialmente a pureza até benévola de Arthur, e a posterior transfiguração espectral desta à medida que ele perde o pouco que tinha a perder, o longa estabelece como mensagem, para além do perigo relatado pelos que não absorveram, o modo hipócrita e doentio pelo qual a sociedade se relaciona com o personagem nesta história toda. É o retrato de um mundo doente ao ponto de renegar de forma consciente quem tem um quadro realmente patológico simplesmente por não compartilhar do seu tipo de loucura, um sadismo mascarado muito mais prejudicial à individualidade humana e à própria estrutura social que uma condição que faz alguém rir na hora errada. Talvez por isso a cena do anão seja a mais poderosa.

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2

 

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.