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High Life (2018) - Crítica

3 semanas, 3 dias atrás - Visto 67 vezes

Durante um dos segmentos de “High Life”, novo projeto da cineasta francesa Claire Denis, acompanhamos um diálogo peculiar de Monte (personagem de Robert Pattinson) em que descreve um compartimento da nave – que prefiro deixar vocês descobrirem qual sua finalidade ao assistir – e comenta: “prefiro a abstinência do que a indulgência”. Um comentário simples, mas que define perfeitamente um dos temas abordados durante a narrativa: o individualismo.

Claro, esse não é o único assunto discutido durante os 113 minutos dessa ficção científica que instiga o seu público a pensar, retirando da comodidade cinematográfica e levando o espectador a uma experiência complexa e – surpreendentemente – acessível. O tom é essencialmente contemplativo e o ritmo é calmo e desafiador, certamente afastando aqueles que não tiverem paciência para entrar na proposta de Denis. Os minutos iniciais ditam como a história será desenvolvida e enche os olhos do espectador com uma composição técnica fabulosa.

Entrando nesse mérito, a composição audiovisual de “High Life” é deslumbrante: a câmera reflete a paciência da narrativa, guiando a maioria de seus movimentos com uma suavidade que permite o espectador contemplar a beleza das composições internas e imprimindo também um estilo documental e intrusivo, como se estivéssemos invadindo a privacidade daquelas pessoas. Os enquadramentos são estendidos muito além do necessário e exibem um controle na maneira como são compostos, transformando-os em pinturas. A Montagem se apropria de cortes secos que inserem uma forte sensação de frieza e melancolia.

O Design de Produção constrói o ambiente interno da nave com uma mistura do espaçoso com o claustrofóbico, além da beleza dos detalhes presentes nos quartos, paredes e outros. A composição da mise-en-scène cria espaços acolhedores pela extensão, porém desconfortáveis pelo clima presente no ambiente. As cores intercalam entre o azulado e alaranjado que recheiam os compartimentos com intensidade.

Porém, mesmo com todo esse apuro técnico, é no roteiro que o projeto encontra suas maiores virtudes. Uma delas é como a narrativa constantemente quebra elementos convencionais em produções do gênero, entregando uma experiência que exala o espírito reflexivo de produções como “2001: Uma Odisséia no Espaço”, “Blade Runner” e até o recente “A Chegada”. A estrutura dos acontecimentos é conduzida de maneira não-linear, com o ato central do filme se desenrolando no começo da projeção. Dentro dessa construção, há inserções abruptas que forçam o espectador a desvendar seus significados.

Mas o que prevalece na trama são os subtextos que carrega e as temáticas que aborda. O filme constantemente questiona como nós lidaríamos em situações semelhantes às representadas, a nossa relação com um ambiente tão opressor e hostil – porém belo e exuberante – como o espaço, o desespero e aflição da solidão e o individualismo tal como o contraponto desse sentimento, é um forte estudo sobre o comportamento humano. Porém, ao desenrolar da trama fica nítido que todo o foco é voltado para a sexualidade.

Claire Denis imprime aqui um vasto estudo sobre a necessidade do ser humano de suprir as necessidades sexuais que nutrimos. Por isso, o diálogo de Pattinson retrata o individualismo, já que a “abstinência” mencionada se refere ao prazer sexual. Há dois momentos que retratam perfeitamente essa análise (e acho importante avisar que as cenas serão descritas com SPOILERS): o primeiro envolve um dos personagens que invade o quarto feminino e estupra uma das integrantes da nave, refletindo a privação da relação sexual. Já outro traz Dibbs (personagem de Juliette Binoche) extraindo o esperma de Monte, porém a doutora realiza a ação por outra vertente que, isoladamente, não faria sentido, mas inserido nesse contexto, é compreensível.

Contando com excelentes performances de seu elenco (especialmente Robert Pattinson, Juliette Binoche e Mia Goth) e um final complexo que levanta mais perguntas do que responde, “High Life” é uma ficção científica que lida com temáticas profundas e bem-trabalhadas, reforçadas por uma composição visual exuberante e chamativa. Um olhar profundo do nosso lado mais animalesco e primitivo em situações onde somos impulsionados pelo desejo de agir dessa maneira.

Nota: ⭐⭐⭐⭐

Filmes Crítica

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.