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Bacurau (2019) - Crítica

1 semana, 6 dias atrás - Visto 69 vezes

E Bacurau? É isso tudo mesmo? Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Melhor Filme Internacional em Munique e Melhor Filme no Festival de Lima, finalmente chega aos cinemas brasileiros o novo filme dos recifenses Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Resguardando o aviso de que o filme precisa ser visto de mente aberta e recomendando o controle das expectativas, posso dizer que sim, Bacurau é tudo isso.

 

Num futuro próximo, pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no oeste de Pernambuco, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa, ao tempo que integrantes da sua sociedade começam a ser misteriosamente assassinados. No curso desta história, podemos afirmar que, assim como Parasita, vencedor da mostra principal em Cannes, Bacurau pode ser melhor dividido em dois blocos do que na estrutura tradicional de três atos.

 

Deste modo, o bloco inicial tem por objetivo a inserção do público na comunidade de Bacurau, o que é feito com muita competência. Ao utilizar a personagem Teresa (Barbara Colen), retornando à sua terra, para nos inserir naquele contexto, como se esta fosse uma protagonista, somente para torná-la mais uma entre os marcantes habitantes do lugar em seguida, deixa claro o propósito de utilizar o povoado como o verdadeiro protagonista da história. A personagem nos puxa pelo braço e nos transporta de fora para dentro da vida da “gente nascida em Bacurau”, e esta vida é o que realmente importa aqui.

 

Com o auxílio de um design de produção brilhante de Thales Junqueira e da belíssima cinematografia de Pedro Sotero, a tal inserção ocorre num nível absurdo de fidedignidade. É um minúsculo povoado do interior do nordeste das estradas chamadas ‘costela de vaca’ aos copos da prateleira, das roupas do corpo às do varal. Como filho do sertão baiano me sinto seguro para atestar tal veracidade.

 

Além desta inserção minuciosamente realizada, que aos poucos vai fazendo com que o público se sinta parte daquilo (o que é imprescindível para que o segundo bloco tenha o impacto devido), o filme fornece diversas informações avulsas, diversas pontas que à primeira vista não parecem fazer sentido algum, ao mesmo tempo que uma possibilidade de exposição dos seus significados instiga a tentativa constante do público de se manter engajado.

 

Pairando sobre uma contemplação paciente do lugar e seus costumes, o filme chega a assustar quando passa para o segundo bloco. A paciência se mantém, mas à medida que as coisas vão se tornando complicadas, somos expostos a uma ampla gama de camadas e subtextos que perpassam convenções características de gêneros diversos: temos a estrutura narrativa parte thriller/horror (é nítida a influência de nomes como John Carpenter), parte western (os planos característicos do spaghetti são recorrentes), elementos de ficção científica distópica, violência escatológica, momentos densos de tensão, pitadas de comédia e transições à lá Star Wars. Apesar de não haver equilíbrio em todas essas passagens, é fato que o tom do filme se mantém consistente na maior parte do tempo.

 

Carreando os citados subtextos, Mendonça e Dornelles se utilizam inteligentemente do futurismo para discutir em pormenores bastante específicos, a possível derrocada brasileira em função dos perigosos discursos que vêm se popularizando nos dias de hoje. Uma análise estrutural simples, levando em conta alguns quadros extraídos do longa, pode ser categórica no sentido de que se trata de um Brasil que quer tirar do mapa quem usa do bom senso para se manter, ao tempo que ajuda a comunidade a fazer o mesmo. Um Brasil a ser tomado pelo Brazil com a ajuda dos poderosos. O instinto punitivo e os abusos da violência policial. A famigerada ‘síndrome do vira-lata', num país que à essa altura, se encontra dividido em dois e temperado pela xenofobia de uma das partes. A louvação fetichista pela violência das armas de fogo. A omissão Estatal relativa às necessidades do povo contraposta à cobrança direcionada a este mesmo povo. E finalmente o desprezo ao conhecimento somado a negação da história do povo brasileiro e à sua própria abnegação.

 

Percorrendo este caminho, o filme, com a mesma pacatez da vida que retrata, vai amarrando uma a uma as pontas que apresentou num primeiro momento, indo em direção a um desfecho climático, simbólico e necessariamente violento. Violência que aliás, além de bem executada é tratada de forma desglamourizada, com a omissão gráfica da violência cruel praticada por um lado, e mostrando de maneira quase constrangida a necessidade do uso da mesma em legitima defesa pelo lado oposto.

 

Em alguns momentos pontuais, o filme perde propositalmente a sutileza de seu comentário e se torna mais ácido que o necessário, de modo que quando não funciona comicamente, afasta uma parcela do público com divergências parciais às questões propostas, acabando por enfraquecer a mensagem.

 

Tornou-se comum definir Bacurau como “o primeiro filme brasileiro de gênero a realmente fazer sucesso”, mas na minha opinião é reducionista demais definir este longa como um filme de gênero. Bacurau é um “filme de gêneros”, totalmente autêntico e indispensável tanto em termos de discurso quando de valor de entretenimento. É um longa que nos clareia a necessidade de reação antes que o declínio seja inevitável.

 

 

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.