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Parasita (Gisaengchung, 2019) - Crítica

2 semanas, 2 dias atrás - Visto 63 vezes

“Parasita”, o novo filme do diretor Sul-Coreano Bong Joon-ho é o tipo de obra cinematográfica que mais me agrada: ela inicia de maneira sutil e inteligente, começa lhe envolvendo aos poucos e quando possui toda a sua atenção, entrega um thriller intenso e com surpresas inesperadas. E arrisco dizer que são poucos projetos que causam as sensações que esse suspense dramático.

É um desafio descrever a trama desse filme sem revelar muitos detalhes – o fator “surpresa” é algo de extrema importância na experiência de ver esse filme – mas o que pode se dizer resumidamente é que se trata de uma família de classe baixa na qual o filho acaba encontrando a oportunidade de ensinar Inglês a garota de uma família mais rica. Saber mais disso pode estragar as descobertas chocantes do texto.

Falando nele, o roteiro do próprio Bong Joon-ho é fascinante por nunca deixar o espectador indiferente ou sem empatia pela família: além de muito carismáticos, é possível compreender a razão do que eles estão realizando e todos tem seu traço de personalidade. O argumento ainda os coloca em situações dignas de um filme dos Irmãos Coen (inclusive, os próprios personagens parecem ter saído do universo de “Ave, César” ou “Fargo”).

A influência dos irmãos norte-americanos pode ser notada na construção da história: o grau de absurdez da trama e de determinadas situações da obra torna a projeção jocosa e acessível até para quem não encontra graça no cinema oriental. Outro acerto do texto são os diálogos e as interações, conduzidas com muita inspiração, ácidas e envolventes, nunca soando demasiado ou supérfluo – ainda nas inspirações vindas dos Coen, as entradas cômicas se aproveitam do humor negro para arrancar uma boa risada do público.

A narrativa é segmentada por dois blocos: o primeiro é mais sutil e constrói perfeitamente o terreno para o que virá a seguir. É no segundo terço da obra, que o texto fica mais astuto, entrega revelações surpreendentes, momentos de nervosismo puro e sem sente confortável ao se entregar a escatologia que o diretor prendeu durante boa parte da trama. E o encerramento impressiona pelo peso dramático que insere na relação de suas figuras.

O design de produção é charmoso ao construir a “casa” dos Kim com detalhes precisos de desgaste e sujeira contrastando com a elegância e luxo da casa dos Park. Já as cores são espertas ao compor o ambiente da família de Ki-taek com tons esverdeados que expressam tristeza e melancolia, enquanto as tonalidades da residência de Yeon-kyo são claras e o verde que rodeia a mansão tem um significado completamente diferente nesse contexto.

O Jogo de Câmera é paciente, com planos longos que exploram os ambientes da mansão, oscilando entre a cautela e a agitação dos movimentos conduzidos – e o travelling onde a câmera passeia pela casa é um dos ápices da projeção. Enquanto isso, a Trilha Sonora delineia os acontecimentos com uma ópera que invade a cena da maneira adequada e contrasta com o que está sendo mostrado.

Contando com ótimas performances de seu elenco – especialmente de Song Kang-ho, colaborador recorrente das obras do diretor – , “Parasita” é um thriller dramático com tons de tragicomédia que agrada pela brilhante trama que desenvolve e pelas quebras de expectativas. O resultado é o melhor filme de 2019 até o momento. E pode ser que ele não perca esse posto.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.