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Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time... in Hollywood, 2019) - Crítica

2 semanas, 3 dias atrás - Visto 43 vezes

Com cinquenta e seis anos de idade, vinte e sete completos do seu primeiro longa-metragem, tendo escrito e dirigido mais alguns sucessos de crítica e público, Quentin Tarantino nos apresenta sua nona obra (tendo prenunciado a aposentadoria na décima). Intitulada como fábula, referenciando clássicos de Sergio Leone, Era Uma Vez em... Hollywood é um híbrido no sentido de ser o mais diverso e ao mesmo tempo o mais pessoal da carreira do realizador até aqui. Mas será que é bom?

 

Em sua essência, contrariando o que possa parecer devido ao histórico do diretor ou ao que pode parecer para alguns em contato com o material promocional, esse filme jamais restringe sua razão de ser à história e seus acontecimentos reais ou fictícios. É sobretudo um filme a respeito do ano de 1969 em Hollywood e abarcando do inicio ao fim tudo que isso representa, o que não é pouco.

 

Nesta continuidade, devido ao esmero com que Tarantino olha para àquela época e sua Hollywood, o filme desenvolve sua beleza baseando-se nesses dois aspectos, e estes são criados com a perfeição necessária para não nos deixar esquecer em momento algum que se trata de um filme dele. Os dois ditos aspectos chave do filme não se desentrelaçam em momento algum, mas vejo esta partição como necessária para me fazer entender.

 

No que tange à época, se encontra uma riqueza de detalhes que inevitavelmente transporta o espectador. 1969 está em tudo, das ruas e dos carros às rádios e marcas (fictícias) de comida para cachorro. A cinematografia de tons vivos, a trilha sonora evocativa e a montagem ágil fazem um trabalho excepcional em compor essa atmosfera. Hippies e figuras carimbadas do período dão as caras a todo momento, e no centro disso tudo se encontra a personagem que apesar de ter pouco tempo de tela se mostra como a agulha que tece o entrelaçamento desse mundo de 69’ com a ‘Hollywood de 69’, a Sharon Tate de Margot Robbie.

 

A atriz mostra um profundo entendimento do que Tarantino pensou para a personagem, e este instaura nela uma atmosfera poderosa através de uma idealização que a venera quase como ungida, se mostrando nos quadros e cortes dos planos, além de evidenciar uma diferença nas dinâmicas temporais de acordo com o personagem que está em tela. Fica claro que a Tate desse filme não precisa de camadas, justamente porque ser integralmente benévola, linda, meiga e inocente é o suficiente para manter altos os níveis de tensão de todos que conhecem sua trágica história lá no alto.

 

Ao lado da casa em que mora com seu marido Roman Polanski, vive Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator que obteve absoluto sucesso como caubói de uma série de TV na década de 50, mas enfrenta dificuldades em engrenar uma carreira sólida no cinema. Este personagem traz consigo o lado Hollywoodiano da história, que se mostra tão sentimental quanto o outro, com as já tradicionais e recorrentes referências ao cinema clássico, inserção dos atores em filmes reais da época e pontas realizadas por vários atores que já trabalharam com o diretor, tudo em harmonia.

 

Neste aspecto, o filme é uma verdadeira carta de amor ao cinema não só da época (embora se apresente como tal com mais ênfase), mas uma carta de amor ao cinema como instrumento de confluência dos mais verdadeiros sentimentos e das mais profundas emoções. DiCaprio compreende isso e compõe em mais uma atuação ímpar, um personagem que cairia facilmente do ambíguo sem esta compreensão.

 

Dalton, sendo alguém que transparece seu orgulho e uma certa autoconfiança, se achando maior do que os outros, como os italianos ou seu dublê (falaremos mais dele), inesperadamente se mostra atrapalhado, tendo rachaduras nessa confiança e um constante autoquestionamento a respeito da sua competência, criando momentos ora jocosos ora carregados centrados em situações de descontrole (ponto pelo sotaque e pela gagueira). Para tal, o ator apresenta níveis distintos de atuação (às vezes em uma mesma cena) quando está interpretando o ator ou quando é este quem está interpretando. Um exercício genial de atuação metalinguística que segura a caneta para que a referida carta de amor seja escrita.

 

Cliff Booth (Brad Pitt) é o dublê e, por um misto de amizade e falta de oportunidade, o faz tudo de Rick. Vestido e sempre rodeado pela cor amarela, que Tarantino gosta de usar para remeter ao passado, Pitt faz um personagem cumulativamente gente fina (no contexto da era hippie) e perigoso, ostentando o carisma do ator para que o público torça pela emersão de seu lado obscuro, tudo isso sem esquecer de presenteá-lo com algumas das mais hilárias cenas já comandadas pelo realizador (destaque para a do Bruce Lee).

 

Isto não obsta a posição do personagem como a peça restante, com a função de carregar o público na tensão que precede o grande e esperado desfecho. Certamente haverá quem diga que esse caminho é demasiadamente arrastado, e eu, embora não concorde, devo reconhecer que há realmente um inchaço. Tarantino estava fazendo o filme que sempre quis, com um dinheiro que não seria destinado a nenhum outro realizador para um longa como esse, e naturalmente houve alguns momentos de excesso.

 

Em Era Uma Vez em... Hollywood, Quentin Tarantino encontra o mais maduro e sentimental de sua personalidade e faz com um pouco (só um pouquinho) menos de verborragia e sangue, e um pouco mais de cadência, seu filme mais pessoal e auto referencial até aqui. Rezemos aos deuses do cinema que este não seja seu penúltimo de sua carreira. 

 

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.