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Aquaman (Idem, 2018) - Crítica

2 semanas, 3 dias atrás - Visto 23 vezes

Acho que é "chover no molhado" dizer que a trilogia O Cavaleiro das Trevas foi um marco no cinema de super-heróis, por mostrar uma pegada mais "realista" daquele universo. Por um lado, isso gerou adaptações excepcionais como Kick-Ass (2010) e Logan (2017), mas por outro lado, isso foi um verdadeiro câncer para a nova iniciativa da DC Comics em 2013, já que filmes como Man of Steel e Batman v Superman: Dawn of Justice. A partir do sucesso de Mulher-Maravilha, a Warner percebeu que seria mais produtivo um tom mais leve e divertido para contar essas histórias, e chegamos ao ápice desse universo. 

O meio-humano, meio-atlante Arthur Curry (Jason Momoa) se depara numa guerra entre o "povo da superfície" e as raças marinhas e, para acabar com esse conflito, ele se une a Mera (Amber Heard) para encontrar o tridente do rei de Atlantis e assumir o seu lugar no trono. A Direção fica a cargo do James Wan, que construiu uma excelente carreira no gênero do horror, com obras como a série de filmes The Conjuring (2013-) e os dois primeiros filmes da franquia Insidious (2011-2018), além do muito elogiado Sawou Jogos Mortais, de 2004. Em 2015, ele surpreendeu ao dirigir Velozes e Furiosos 7, que mesmo desprovido de qualidade, tinha na direção das sequências de ação, o seu ponto forte e destacava o diretor acima de outros que passaram pela franquia. Em Aquaman, ele se vê livre ao misturar o melhor do seu trabalho nos dois gêneros.

As sequências de ação são sensacionais, com um ritmo eletrizante e sem exagerar em recursos como o Slow-Motion ou o CGI, oferecendo um estilo pessoal para as cenas, a luta entre o Arthur e os "piratas" no submarino ou o momento onde a Atlanna (Nicole Kidman) enfrenta diversos guerreiros de Atlantis no começo da projeção é somente um aperitivo do que é feito aqui. O Jogo de Câmera é absurdo, com movimentações ágeis que acompanham a ação de modo impressionante, com um bom uso de movimentos circulares e planos-sequências fascinantes.

O James Wan ainda encontra espaço para encaixar um pouco dos seus anos de aprendizado no gênero do terror, ao empregar uma sequência voltada para o terror psicológico com criaturas marinhas horripilantes, com um bom uso da escuridão, além de ter um dos melhores enquadramentos do filme. E por falar neles, o diretor consegue criar planos maravilhosos que deixam a ação mais energética e que ainda conseguem ser memoráveis. O primeiro ato faz tudo corretamente e consegue envolver o espectador na trama, mas é a partir do segundo ato, que a maioria dos problemas da obra ficam mais enfatizados, além do exagero de humor, que perde a linha.

Entrando nos problemas desse filme, alguns deles se encontram no Roteiro: escrito pelo Will Beal e David Leslie Johnson-McGoldrick é desprovido de qualquer originalidade, repleto de clichês e conveniências narrativas, cheio de previsibilidade, além de ter elementos que remetem claramente a obras como The Lion King (1994) e, mais recentemente, Pantera Negra. Os Diálogos são muito cafonas e sem inspiração, cheios de frases de efeito ("talvez o povo não precise de um rei" - "e do que eles precisam" - "de um herói") e repleto de exposição a cada segundo, é compreensível, pois se trata de um universo inédito para o espectador, mas nem tudo precisa ser "verbalizado".

Mesmo com todos esses problemas de roteiro, o texto faz questão de desenvolver os relacionamentos e motivações de seus personagens, fazendo com que o espectador se envolva com eles. A dinâmica da Mera e do Arthur gera momentos hilários e o romance é convincente e bem desenvolvido. Outra relação que é muito envolvente, é a da Atlanna e do Thomas Curry (Temuera Morrison), que mesmo muito apressada, tem suficientes elementos para conquistar o público. E, claro, os dois vilões são repletos de motivos que justifiquem as suas ações extremas.

Mas, o melhor elemento desse texto é o que faltava em diversos filmes atuais da DC Comics: a jornada do herói. O Arthur Curry passa por uma evolução de personagem que nenhum dos outros heróis do DCU passaram. Ele tem um conflito moral muito interessante, que reside no fato de não querer ser rei, mas que talvez ele precise se tornar um líder para esse povo, e ao chegar no Aquaman do terceiro ato, o espectador sente aquele protagonista "bad-ass" e cômico, mas é possível enxergar o quão grande foi o aprendizado e o quanto importante é a imagem que ele irá representar para o seu reino. E, mesmo sendo um arco familiar demais, a forma como foi desenvolvida, é muito inspiradora.

Tudo que envolve o trabalho visual de Atlantis é maravilhoso, os efeitos visuais são muito bem trabalhados, tanto nas sequências de ação, como na criação visual da cidade. O Design de Produção é magnífico, com um amplo cuidado nos detalhes dos ambientes, desde a arena chamada de "anel de fogo", até o design da ponte que transporta para dentro da cidade, há um esmero em todos os elementos da produção de arte. Destaque para o figurino, que esbanja estilo no cuidado com os uniformes dos soldados de Atlantis e em outras diversas armaduras. 

Mas o destaque do trabalho técnico vai completamente para a Trilha Sonora do Rupert Gregson-Williams, que exala estilo, com uma troca eficiente entre o épico, o ameaçador, o emocionante e elegantes riffs de guitarra, oferecendo mais energia as cenas que elas correspondem, me admira que esse compositor tenha trabalhado em filmes do Adam Sandler. A Montagem é cuidadosa ao transitar com controle entre drama e humor, sem nunca destoar da proposta leve da narrativa. 

O Jason Momoa é a encarnação perfeita do personagem, oferecendo uma brutalidade e uma veia cômica muito convincente, embora ainda precise melhorar um pouco mais em termos interpretativos. A Amber Heard está surpreendentemente bem, tem muito carisma e convence nos momentos de humor, mas também precisa evoluir um pouco em termos interpretativos. O Patrick Wilson consegue sustentar a cafonice de seu vilão, além de ter uma motivação plausível. O Yahya Abdul-Mateen tem uma boa motivação, mas acaba se tornando um personagem repetitivo e rebaixado a mero coadjuvante. Já os personagens do Dolph Lundgren, Nicole Kidman e o Willem Dafoe não tem suficiente material para compor bons personagens.

Aquaman não tem um roteiro 100% equilibrado que sofre de problemas na imprevisibilidade e na qualidade dos diálogos, mas é um filme divertido, visual e tecnicamente impecável, além de energético e envolvente. O melhor filme do DCU.

Nota: ⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.