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Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016) - Crítica

2 meses, 1 semana atrás - Visto 79 vezes

Depois de um - relativamente - longo processo de desenvolvimento de cada um dos personagens que aparecem aqui, no terceiro filme do Capitão América acabam se dividindo, a partir do estabelecimento de um tratado que tire a "liberdade" desses super-heróis de poderem agir. Em lados antagônicos, as equipes se enfrentam em um aeroporto, no encerramento do segundo-ato, mas, é interessante a complexidade por trás dessa cena: em momento algum, eles tem a intenção de "matar" uns aos outros. A ideia era neutralizar e prender aqueles que se opuseram a serem "submissos" ao governo, enquanto o lado contrário tinha como intenção alcançar o avião que levariam eles ao espaço da conclusão. O motivo? Simples, aqueles personagens eram aliados.

Não é qualquer filme de herói que cria uma complexidade entre seus personagens como esse. 

Devido a acontecimentos como a batalha de Nova York no primeiro Vingadores, a destruição da base da S.H.I.E.LD. em O Soldado Invernal e da cidade de Sokovia em A Era de Ultron, o governo decide por um fim nisso e cria um tratado, definindo que os super-heróis devem passar por um registro para serem utilizados somente quando uma autoridade governamental maior decidir. Isso divide os personagens, colocando Tony Stark do lado a favor e Steve Rogers contra, forçando um embate ideológico e físico entre os personagens.

Não se deixem levar pelo título: a "Guerra" que dá nome a obra é algo muito mais sutil e construído com delicadeza pelo maravilhoso roteiro do Christopher Markus e Stephen McFeely que faz algo que outras obras do subgênero raramente se ousam a propor: Guerra Civil faz o seu público refletir. Aqui, os constantes - e brilhantemente bem desenvolvidos - embates sobre o papel do herói, vigilantismo x heroísmo, o valor e a importância da liberdade tem um peso maior sobre a narrativa do que as sequências de ação e momentos empolgantes de um blockbuster, isso é raro de se ver em um filme de super-herói e diferencia esse de outras produções do nicho.

O que ajuda a construção desses confrontos são os excepcionais diálogos. Os embates ideológicos do Tony com o Steve ganham um peso muito forte na narrativa através de conversas intensas e bem trabalhadas, além do adicional do alívio cômico com piadas inteligentes e perfeitamente dosadas, nunca destoando das cenas mais importantes e sérias, o Tom da obra é muito equilibrado. Vale destacar também o vilão: Zemo é o antagonista ideal para essa trama, mesmo que sua participação pouco faça diferença, ainda assim é um personagem bem construído pelo texto, com motivações plausíveis e - quem diria! - uma atuação competente de Daniel Brühl.

Não era necessário desenvolver os personagens apresentados aqui, até pelo fato dos mesmos já terem sido construídos nos filmes anteriores. O desafio dos irmãos Anthony e Joe Russo (responsáveis pelo fantástico O Soldado Invernal) era permitir que cada um deles tivessem sua participação ou seu "momento" e tinham como trabalho introduzir dois novos personagens: Pantera Negra e Homem-Aranha. Começando pelo T'Challa, o Chadwick Boseman conseguiu passar perfeitamente a imponência e presença forte do personagem nas HQs aqui, as motivações e intenções de seu personagem são alheias as dos demais nesse embate. E o que dizer de Tom Holland? Finalmente tive o prazer de ver esse personagem que tanto amo de forma extremamente fiel, superando até o Tobey Maguire em termos de fidelidade, com uma performance engraçada e jocosa. 

Os demais personagens estão ainda melhores: O Paul Rudd e o Jeremy Renner, mesmo sem motivações para estar nesse confronto, funcionam muito bem levando em consideração o elemento que citei no parágrafo de abertura. A Elizabeth Olsen está ótima ao ter um autoquestionamento sobre o que ela representa para sociedade; a Scarlett Johansson consegue exibir uma dualidade impressionante nas motivações da Black Widow; o Paul Bettany, Don Cheadle e o Anthony Mackie estão mais a vontade em seus papeis, já a Emily VanCamp e o Martin Freeman não acrescentam nada a narrativa. 

E finalmente chegamos aos centros desse embate: O Robert Downey Jr. sente todo o peso de suas ações como Homem de Ferro, é a performance mais sombria e emocionalmente carregada, o arco pessoal de seu personagem é muito bem conduzido e o ator tem espaço de sobra para demonstrar o seu enorme talento como ator. Outro que simplesmente brilha aqui é o Chris Evans, ao passar uma imagem menos patriótica e mais humana ao Capitão América, o texto também ajuda fortemente, evoluindo a sua jornada e todos os seus princípios e valores, trabalhando com perfeito cuidado e fechando a sua trilogia de forma correta.

As sequências de ação de Guerra Civil são deslumbrantes: as primeiras tem um estilo urbano, com o uso da "shake-in-cam" e cortes rápidos que remetem aos filmes da franquia Bourne, retirando a obra daquele universo fantasioso dos demais trabalhos do estúdio e coloca ele em uma vertente mais realista e humana, marca registrada dos irmãos Russo. Outro destaque é, logicamente, a cena do aeroporto, com um controle geográfico incrível e feita numa escala menor, diferente do que geralmente é feito nesse subgênero. Mas, o destaque vai para a luta final, onde os diretores e roteiristas conduzem o segmento inteiro com um senso emocionalmente forte em uma briga agressiva e impactante para o universo Marvel. A Trilha Sonora do Henry Jackman constroem um senso épico muito grandioso e os efeitos visuais são inacreditavelmente imperceptíveis. 

Capitão América: Guerra Civil é audacioso e extremamente bem sucedido em sua proposta: uma obra menos fantasia e mais humano, que discute temas importantes de forma inteligente e consegue criar um embate completamente justificável, com um encerramento digno e que implica em mudanças drásticas no Universo Cinematográfico Marvel. Os Irmãos Russo tiraram os fãs da mesmice do subgênero e nos levaram a um outro nível, nesse clássico dos filmes de super-heróis.

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.