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Hellboy (2019) - Crítica

2 semanas, 2 dias atrás - Visto 21 vezes

Em apenas 3 minutos de projeção, o novo Hellboy encabeçado por Neil Marshall demonstra exatamente algumas de suas - inúmeras - falhas: exposição verbal sofrível, péssimas performances, uma ornamentação visual óbvia e pobre e um exagero de gore sem propósito, a não ser “justificar” a classificação ter sido “R” nos Estados Unidos.

E são somente os primeiros minutos desse desastre ambulante.

  • Ao chegar à Terra ainda criança, após ser invocado por um feiticeiro contratado pelo governo nazista, Hellboy (David Harbour) foi criado como um filho por Trevor Bruttenholm (Ian McShane), um professor que estava no local no momento em que emergiu do inferno. Já adulto, Hellboy se torna um aliado dos humanos na batalha contra monstros de todo tipo. Quando a poderosa feiticeira Nimue (Milla Jovovich), também conhecida com a Rainha Sangrenta, insinua seu retorno, ele logo é convocado para enfrentá-la.

Acho válido ressaltar que essa premissa apresentada pela sinopse demora 40 minutos de projeção para finalmente se iniciar. Ou seja, a obra pode ser dividida em duas metades: a primeira é completamente irrelevante e a segunda evolui os problemas que já se faziam presentes no ato anterior. Antes de entrar na área onde expresso o nível de ruindade do filme, é necessário exaltar suas virtudes - que são poucas, mas impediram que tivesse uma indigestão durante seu decorrer:

A Maquiagem é realmente impressionante na forma como expressa os detalhes das criaturas apresentadas, a composição visual do próprio Hellboy é bem feita assim como a da Baba Yaga, que apresenta um design assombroso, inclusive em sua movimentação corporal. Há conceitos estéticos que são atraentes -especialmente de algumas criaturas que marcam presença no confronto final, mesmo que seja muito breve. O Tom também é um acerto por se manter fiel ao clima humorístico, cheio de xingamentos e violência gráfica apresentados no início do filme (esse último acaba se tornando um defeito por ser usado sem controle).

Quanto aos demais aspectos desse reboot do Hellboy, a única coisa que posso expressar é: uau! Mas, infelizmente, não é no bom sentido que esse termo é geralmente utilizado. Durante os 121 minutos de filme, é realmente fascinante o quão horrendo é praticamente tudo e como absolutamente nada funciona com competência. É uma série de más decisões, orquestradas de qualquer forma.

Aliás, é importante ressaltar a direção de Neil Marshall que, do primeiro take em diante, se mostra completamente indiferente ao texto; a sensação passada é que Marshall não se importou em momento sequer com o que estava fazendo. E, no final, o sentimento foi de que não havia uma voz autoral por parte do diretor, que certamente só gritou “Corta!” ou “Ação” pois o estúdio precisava que alguém cumprisse essa função básica de um produto cinematográfico.

A falta de autoria na condução de Marshall se reflete, por exemplo, na sequências de ação: o diretor filma esses momentos sem qualquer inspiração, com movimentos desorganizados de câmera, coreografias previsíveis, uma falta de lógica geográfica no deslocamento dos personagens no ambiente das lutas (o exemplo perfeito é a cena dos gigantes) e um uso terrível do CGI (que entrarei em detalhes daqui a pouco).

Outra prova da indiferença de Marshall na forma como conduz a obra são as inserções musicais: a todo momento, há uma música tocando de fundo e, muitas das vezes sem qualquer propósito, são interferências que não acrescentam nada a narrativa e ainda ajudam a deixar tudo mais desordenado, já que em curtos períodos de tempo, são utilizadas 3 canções em sequência.

E ai entramos no maior defeito de Hellboy: o Roteiro.

A trama é interessante e poderia gerar uma aventura fantasiosa bem divertida, pesada e debochada - logicamente seguindo o traçado de Deadpool - , mas infelizmente, tudo isso passa distante da resolução final. Primeiramente, a Narrativa é completamente caótica: são várias subtramas (muitas desnecessárias, vale falar), diversos acontecimentos e personagens que são todos trabalhados sem qualquer ordem. É bizarro, pois a impressão que sentida é de que a estrutura da obra é uma série de sequências isoladas que vão se conectando sem uma ordem lógica.

Isso afeta profundamente o desenvolvimento de personagens e a forma que o roteiro trabalha as relações dos mesmos: toda a interação de pai-filho do Hellboy com o doutor Bruttenholm é vazia, igualmente a do próprio protagonista com a persona da Sasha Lane (tão memorável que esqueci o nome da sua personagem), o que deixa momentos isolados da projeção emocionalmente supérfluos. Os diálogos são bobos, previsíveis e dolorosamente expositivos, já as interrupções humorísticas são tão engraçadas que não fui capaz de rir em qualquer uma das tentativas.

Outro elemento que o roteiro prejudica é o elenco. O David Harbour, mesmo sem qualquer traço de desenvolvimento de seu protagonista, mostra estar se divertindo ao compor um Hellboy mais debochado e imaturo. Infelizmente, não dá pra falar o mesmo dos coadjuvantes: a Sasha Lane é esquecível e sem substância, o Ian McShane deixa visível o quão desconfortável está em fazer parte dessa atrocidade e a Mila Jovovich simplesmente não sabe atuar, exibindo trejeitos e uma expressividade exagerada e sem expressividade.

É compreensível que não dava para esperar muito de apuro visual sendo um filme distribuído pela Lionsgate, mas é inexplicável o quão horrível é a computação gráfica de Hellboy. Os efeitos visuais não tem textura, soando constantemente falsos na composição de personagens em CGI e nos Chroma-Keys - mais uma vez, vale citar a péssima cena envolvendo os gigantes.

Em resumo, Hellboy é basicamente o filme perfeito para geração atual que é pouco exigente com relação a entretenimento: visualmente podre, com uma narrativa bagunçada e que não encontra espaço para desenvolver os personagens e a relação deles, além de conter uma direção completamente indiferente.

Mas, tem músicas pop, lutas insanas, piadinhas, monstros incríveis e violência. Ou seja: todos os elementos para fazer o adolescente que faz parte da geração nuttela pirar e amar esse tipo de produção.

Para quem tem um pouco de exigência cinematográfica, é um dos piores filmes de 2019.

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.