Logo Logo2

Chernobyl (Idem, 2019) - Crítica

2 meses, 3 semanas atrás - Visto 104 vezes

Nasci e cresci na época que simbolizou o maior salto da história em termos de qualidade e injeção financeira nas séries de TV, apoiando-se no legado de verdadeiros fenômenos, que permitiram uma popularização ascendente do formato. Com isso, foi fácil ter em toda a minha vida um contato íntimo com as produções televisivas. Em contrapartida, sempre fui um adepto mais fiel dos longas-metragens, que são o foco da minha paixão maior, e também meu foco no site Backstage. Por que começar a crítica de maneira tão pessoal? Porque vamos tratar de um caso que sem dúvida justifica uma exceção à regra.

Chernobyl chegou com a missão de manter os assinantes da HBO após o polêmico final de Game of Thrones. Uma minissérie de apenas cinco capítulos sobre o maior e mais trágico incidente nuclear da história da humanidade, ocorrido na Ucrânia Soviética no ano de 1986. Além de ser incomparavelmente superior à última temporada de GOT, Chernobyl é simplesmente brilhante, figurando sem dúvida no hall das gigantes da emissora.

Tratando de um tema historicamente recente, tecnicamente complexo e consideravelmente polêmico, o criador Craig Mazin, que até então era conhecido como argumentista de comédias besteirol, escolhe uma abordagem certeira da história e constrói em cima desta um texto simplesmente irretocável. A história do acidente e de suas consequências é contada de dentro pra fora, mantendo o enfoque na escala micro para projetar no telespectador a escala macro.

Ao longo dos episódios, ao passo que é contada a história do acidente, somos apresentados a alguns personagens, figuras de diversas origens, com trabalhos, tendências e orientações diferentes. Com muita competência e cuidado extremo na composição e desenvolvimento destes, cria-se facilmente a empatia para que tenhamos a partir dos seus casos singulares a ideia do dano à coletividade dos milhares que foram afetados pelo incidente.

Já sobre a tragédia, que na verdade foi causada por uma sucessão de erros de diferentes pessoas motivadas por diferentes interesses, a minissérie a constrói e explica de maneira clara e gradativa, de modo a instigar primeiro para posteriormente engajar o telespectador, com um senso de causa e consequência simplesmente perfeito. É-nos exposta de perto à maneira dos ambiciosos que agravaram as consequências por não querer acreditar, dos poderosos que estavam mais preocupados em esconder e manter o orgulho da nação do que em realmente entender o acontecimento, dos responsáveis por manter a sujeira debaixo do tapete e da comunidade científica fazendo o que podia para reduzir os impactos do desastre.

Os principais agentes têm um arco muito bem definido (vide o personagem de Stellan Skarsgard), e ainda aos que não têm, são atribuídas camadas que os humanizam e que a direção sensivelmente pega nos detalhes, nos maneirismos, na linguagem corporal, etc. Dentre os principais, se destaca o mais próximo de um protagonista que temos na série, o homem da ciência Valery Legasov, interpretado por um a essa altura indicado ao Emmy, Jared Harris. Além da brilhante composição que também existe no trabalho dos demais atores, Jared Harris consegue criar toda a empatia necessária com o público ao tempo que explica simplificadamente todos os complexos temas pertinentes ao acidente e necessários para a compreensão da trama. Tudo isso dentro de diálogos críveis, precisamente encaixados e com uma propriedade invejável, sem que o texto jamais se deixe cair na exposição barata.

Tecnicamente, a série também beira a perfeição. Talvez pelo fato de que todos os episódios são dirigidos por Johan Renck (diretor de episódios de Breaking Bad e The Walking Dead), a série apresenta uma consistência atmosférica que permeia todos os episódios, ao mesmo tempo que dá a cada um uma identidade própria. Tal atmosfera evolui magneticamente de acordo com o que dita o roteiro, esquentando e esfriando nos momentos pertinentes, conduzidos de maneira cirúrgica. A abordagem realista pede uma certa seriedade, paciência na condução das cenas. Porém, a direção sabe o momento exato de mexer as coisas e criar tensão, acelerando os cortes e esquentando o clima. Tais qualidades, ao se tornarem constantes, permitem ao público um olhar altruístico que o identifica facilmente com qualquer personagem recém apresentado, puxado pela gravidade atmosférica.

Essa atmosfera se constrói com o apurado equilíbrio de uma competente cinematografia nublada em tons de verde (que ainda encontra tempo para quadros abertos maravilhosos), com a trilha sonora agonizante, uma boa montagem e a primorosa maquiagem, que acaba com qualquer dúvida sobre as reais consequências da exposição à radiação, mostrando-as de forma gráfica e indistinguível do real.

Não é justo definir Chernobyl com menos do que brilhante. É caso raro de uma obra tão minuciosa que acerta em cheio em tudo o que se propõe a fazer.

Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

Crítica Séries

Compartilhar nas redes sociais

Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.