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Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019) - Crítica

4 meses, 2 semanas atrás - Visto 100 vezes

Uma abordagem jamais vista do mais notável serial killer da América, um ex-astro teen que nunca fez nada tão notável assim em termos de atuação, um diretor conhecido por seus bons documentários, festival de Sundance, distribuição nos EUA pela Netflix. Carregando tudo isso em sua ficha, Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal, conseguiu plantar uma curiosidade instigante em torno de si, mas o resultado final passa longe do satisfatório.

 

Baseando-se livremente no livro de memórias escrito por Elizabeth 'Liz' Kendall, namorada de Ted Bundy (Lily Collins), o longa toma a perspectiva dela como ponto de partida, e define como objetivo a provocação ao público, o autoquestionamento a respeito das atitudes tomadas por ela. O famigerado "será que eu faria o mesmo?" é o ponto aqui.

 

O filme abre mostrando a chegada de Liz na prisão para visitar um Ted já condenado, com um vidro sujo separando os dois, símbolo de um afastamento com pontos nebulosos ou ainda não resolvidos. Antes de começarem a conversar, somos lançados ao passado para acompanhar o desenvolvimento do relacionamento entre os dois em paralelo aos cada vez mais numerosos casos bárbaros que surgiam acusando o homem que parecia ser perfeito para Liz. Esta, por sua vez, acabava de se libertar da insegurança que carregava sobre novos relacionamentos, advinda de uma ideia de rotulação social contra mães solteiras.

 

A partir daí os problemas já começam a aparecer. Apesar de haver química entre os dois, o relacionamento deles começa e se desenvolve de maneira demasiadamente apressada, sem ceder ao público o tempo necessário para a compreensão da total idealização de um para com o outro. Isso de per si já traz consigo uma dificuldade de fazer crer nas atitudes que decorrem desse amor. Mais adiante, num segmento entre o segundo e o terceiro ato, isso se reforça com um injustificável sumiço da moça, que até então se mostrava como o fio condutor de toda a história, numa mudança total de perspectiva somente para dar a Efron seu momento para brilhar.

 

Com uma câmera psico instável, planos excessivamente curtos e o exagero em cortes secos sem propósito claro, o filme mira no ágil, mas acerta no visualmente fatigante. Há de se reconhecer que a reconstrução de época auxiliada pela boa fotografia e figurinos é bastante fiel, e a montagem é um ponto positivo. Porém, nada disso consegue salvar o filme de uma desnecessária estafa visual. Há também algumas sugestões simbólicas bem-vindas, mas que infelizmente perdem a força ao serem explicadas de maneira didática ao final.

 

Ainda sobre a reconstrução da época, o diretor escolhe músicas evocativas cujas letras refletem o estado do personagem no momento. Além de ser o ápice da breguice, quebra a atmosfera das cenas e somente funciona em algumas ocasiões pontuais.

 

Em contrapartida aos problemas, o filme é bem atuado, tanto por parte dos protagonistas quanto dos coadjuvantes. Entre estes, o destaque é o veterano John Malkovich, que faz um juiz ao mesmo tempo marrento, correto e compassivo, sendo memorável muito além da fala que dá nome ao filme. Lily Collins, embora seja sabotada pelo roteiro, segura muito bem as pontas quando a responsabilidade cai sobre ela.

 

Alguns chamaram de irresponsável e outros de corajosa a abordagem do assassino adotada pelo diretor, mas o fato é que muito por contribuição do ator, funciona. Os assassinatos nunca são mostrados e ficam sempre no campo da sugestão, o que auxilia a criação do referido questionamento do espectador. Deste modo, Zac Efron é muito eficiente em fazer o uso mais maduro de todos os seus atributos até aqui. Ele utiliza a beleza em favor do personagem, convencendo tanto como um “bom e carismático moço” quanto como sociopata e exímio mentiroso, entregando tudo que a trama precisa nesse aspecto. No terceiro ato, o filme se transforma em um drama de tribunal e o protagonista tem seu melhor momento ao sustentar oralmente sua tese. Os monólogos convencem, ainda que percam parte do impacto para os que conhecem a história.

 

‘Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal’ insiste em anular as qualidades que tem com seu próprio desequilíbrio, deixando o público apenas com vislumbres do que poderia ter sido se fosse feito com mais cuidado. No final das contas é uma jornada que, sabendo o final, não captura o suficiente para valer à pena.

 

Nota: ⭐⭐ 1/2

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.