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Rolling Thunder Revue (Idem, 2019) - Crítica

4 meses, 3 semanas atrás - Visto 159 vezes

Rolling Thunder Revue definitivamente não é um filme para desavisados. Não saber do que o novo filme de Martin Scorsese (segundo sobre Bob Dylan) realmente se trata pode levar sua experiência por água abaixo, sintomatizando críticas injustas a ser proferidas pelos quatro cantos. Em contrapartida, sabendo o que a obra pretende ser, assisti-la pode ser um mergulho no oceano de divagações poéticas e filosóficas que é a mente de Dylan, e isso é fascinante.

 

Essencialmente, o filme é um falso-documentário sobre a famigerada turnê circense do artista norte-americano. Um Dylan de cara pintada e flores no chapéu, em pleno fervor do bicentenário estadunidense, dirigindo o próprio ônibus, de cidadezinha em cidadezinha e agregando artistas pelo caminho. Mas a película, ao traçar o paralelo do significado de uma turnê como essa com a reflexão intimista de seu idealizador, diz muito mais.

 

Como falso-documentário, entende-se a miscelânea de imagens de arquivo que seriam um filme que nunca aconteceu, com entrevistas e inverdades criadas só e exclusivamente para reforçar a jornada do filme até seu destino. Entre as várias mentiras contadas, como o duvidoso caso de Sharon Stone, se destaca a criação de um personagem que nunca existiu apresentado como o suposto diretor do tal filme e autor das imagens. Interpretado pelo argentino Martin von Haselberg, o filmaker não é o único personagem fictício, mas certamente o mais memorável destes.

 

Scorsese demonstra a existência dos enganos de forma bastante sutil, logo no início, quando toma a tela um vídeo de ilusionismo de Georges Méliès, nos dizendo que a ilusão da desinformação trazida pela mentira metalinguística que o filme é em si, se justifica válida na conclusão, o “Uau” ao fim da mágica. Em suma, o filme é uma subversão do próprio gênero documentário, ao qual se propõe ser rotulado. É uma viagem interna no psicológico de Dylan, simultânea à viagem com a turnê.

 

Neste sentido, e isso talvez se perca nas digressões, essa ‘História de Bob Dylan por Martin Scorsese’ é em sua natureza uma reflexão sobre a própria viagem, objetivando sentir-se em casa ao retornar, renascer. A partir do momento em que se descobre isso, todas as divagações até então sem sentido são ressignificadas.

 

Para conseguir fazer algo assim, o material gravado teria que ser extremamente rico, e felizmente o que o diretor encontra nas fitas feitas por Howard Awk, amigo de Bob, é uma mina de ouro. Para além do deleite das musicas completas tocadas ao vivo, são arquivos que fazem sentir parte do grupo, criando uma afinidade que se estende até o que há na cabeça do artista, não permitindo que se perca totalmente o seu valor documental. No meio disso tudo, ainda se encontram contrastes nas cores, e uma montagem que se permite brincar ao criar muitas pontes precisas e algumas transições insólitas.

 

Apesar de todas as virtudes, nem só de flores se compõe o chapéu, ou o filme. O segundo ato se alonga muito mais do que deveria, causando um inchaço desnecessário e pintando o momento perfeito para os mais puristas abandonarem o longa.

 

Por fim, nada define melhor Rolling Thunder Revue do que a simples e profunda alegoria ditada pelo próprio Dylan: “Se alguém usa uma máscara, ele está dizendo a verdade”. É precisamente isso que Scorsese faz, veste em seu filme máscara de documentário para compartilhar uma verdade grande demais para o tangível.

 

Nota:⭐⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Um baiano totalmente apaixonado por cinema desde que andava de velotrol pelos corredores simétricos do Hotel Overlook, hoje perseguindo qualquer migalha da flor perfeita e rara do conhecimento como o Col. Douglas Mortimer persegue sua vingança. Músico de quartinho, fã dos Beatles, corintiano e estudante de Direito nas horas vagas.