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Magnólia (Idem, 1999) - Crítica

2 semanas, 6 dias atrás - Visto 40 vezes

“O amor é um pássaro rebelde Que ninguém consegue domar E é inútil chamá-lo Foi ele que acabamos de recusar”

Esse é um trecho da ópera “Cármen” de Georges Bizet, citado em um breve momento da narrativa do segundo filme comercial da carreira de Paul Thomas Anderson. Esse pedaço retirado simboliza um dos temas que o texto de Anderson aborda, envolvendo a incapacidade que seus personagens, ao longo da narrativa, tem ao se entregar ao amor, negligenciando constantemente.

É por detalhes assim que amo tanto a sétima arte…

Dirigido e escrito por Paul Thomas Anderson, a trama conta um dia em San Fernando Valley, na Califórnia, nos arredores da rua Magnólia, as vidas de nove personagens são interligadas através de um programa de televisão onde um grupo de três crianças desafia três adultos. O filme acompanha um pai à beira da morte, uma jovem esposa, um enfermeiro, um filho perdido, um policial apaixonado, um menino gênio, um ex-gênio, o apresentador do programa e uma filha afastada, cujas histórias se cruzam por coincidências do destino.

Imediatamente na abertura de Magnólia, Anderson narra três histórias completamente movidas pelo “acaso”, fazendo com que o espectador já se envolva com a proposta de uma trama onde todos os seus personagens estão ligados por meras coincidências do destino. Inclusive, é importante ressaltar que não há uma história central, um protagonista ou elementos semelhantes que se encontram na maioria das narrativas cinematográficas. Aqui, acompanhamos uma série de acontecimentos que, aos poucos, se interligam.

Para isso, Anderson precisaria criar o envolvimento com aquelas figuras que percorrem toda a narrativa. É, me alegra dizer que o diretor é extremamente bem sucedido nesse aspecto. Durante as 3h e 8min de filme, o diretor consegue trabalhar os conflitos de cada uma das suas figuras, que abordam os temas mais variados: vício em drogas, prostituição, traição, doenças terminais, arrependimento, pressão paterna, desespero, entre outros. É um filme cheio de cuidado com cada uma das metáforas visuais e assuntos discutidos.

O que ajuda a compor o nosso envolvimento com as figuras apresentadas, certamente é o elenco, onde não há uma atuação que possa ser considerada inferior. O personagem que mais me chamou a atenção foi o Jim, personificado por John C. Reilly com uma personalidade honrada e como um homem que procura fazer o bem sempre, infelizmente vive completamente solitário, mas mantendo uma áurea bondosa - e a química do ator com Cláudia, interpretada por Melora Walters (que expressa perfeitamente o sofrimento enfrentado) é o que vai mudar o rumo de sua vida (mais um elemento que representa a idéia do “acaso”).

Outro que entrega uma performance fantástica é Tom Cruise, que compõe Frank Mackey com uma energia incontrolável, que esconde um menino frágil e sofredor que culpa o pai por todas as dores enfrentadas; Jason Robards imprime em Earl um forte senso de arrependimento pelos erros que cometeu no passado, drama que é igualmente sentido por Jimmy Gator, interpretado por Philip Baker Hall. Julianne Moore personifica Linda com uma urgência exagerada, porém funcional.

Phillip Seymour Hoffman oferece a Phil uma bondade e espírito caloroso que logo fazem o espectador criar uma simpatia com seu personagem; já William H. Macy compõe sua figura com um drama profundo e muito incerto sobre seus sentimentos e fechando o elenco, temos Neil Flynn que interpreta a constante pressão que Stanley sofre do pai e de todos ao seu redor.

A forma que P.T. Anderson conduz a trama é fascinante: a Narrativa nunca soa desnecessariamente longa, mesmo com 3 horas de duração, o ritmo nunca fica enfadonho, graças a constante intercalação dos núcleos de seus personagens, mérito da ótima Montagem que dosa perfeitamente o tempo de cada uma das cenas. Os movimentos de câmera constantemente desacelerados e os close-ups dramáticos nas figuras centrais da obra são excepcionais.

A Cinematografia retrata outro lado de Los Angeles, sem o glamour que sempre se faz presente em narrativas ambientadas na cidade, filmando as ambientações com uma ornamentação de luz e cor pouco exuberante, mais realista e íntima. A Trilha Sonora instrumental complementa o elemento emocional sem nunca manipular os sentimentos do público. Já as músicas da Aimee Mann (que inspiraram Anderson a escrever o roteiro) tem a carga de melancolia necessária para a trama, além de muito bem introduzidas.

Mas o que se sobressai em Magnólia é o roteiro. Recheado de simbolismos e metáforas inteligentes e bem encaixadas durante o desenrolar da narrativa. Além disso, há duas temáticas centrais que movimentam constantemente a maior parte da trama: a incapacidade de amar, citado no começo do artigo, e as relações problemáticas entre pais e filhos. No início da obra, o texto insere uma interação entre Cláudia e Jimmy, que expressa o distanciamento e repulsa que a mesma sente pelo pai; Frank também sofre pela dor de ter sido abandonado pelo pai, que havia traído a esposa e vive remoendo esse trauma durante sua vida adulta, entre outros vários.

Vale ressaltar os diálogos, que Anderson elabora com uma naturalidade brilhante, cheio de monólogos intensos e emocionantes. O roteiro de Anderson é inteligente ao abordar com delicadeza as nossas relações, sejam elas familiares e sociais, o que gera momentos emocionalmente poderosos como o que Earl fala sobre a esposa morta e expressa seu arrependimento e a que Frank conversa com seu pai. Outros dois segmentos que são fascinantes é a sequência do “Wise Up”, onde os personagens cantam simultaneamente a canção da Aimee Mann e a cena da chuva - que não darei detalhes sobre.

Magnólia é um clássico, não somente por ser dirigido por um realizador que fez seu nome no cinema contemporâneo, mas por ser um drama complexo sobre as relações humanas que nutrimos e o poder das coincidências. Acredite ou não, elas existem.

Realmente, Paul Thomas Anderson é um gênio.

Nota: ★★★★★

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.