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Fora de Série (Booksmart, 2019) - Crítica

2 semanas atrás - Visto 33 vezes

Nunca fui um entusiasta do trabalho interpretativo da Olivia Wilde, admirando a mesma pela sua inconfundível beleza. Porém, ao assistir ao seu primeiro trabalho no campo da direção com "Booksmart", pude perceber que a atriz na qual subestimava o "talento" interpretativo escondia dentro de si uma exímia e controlada diretora, que realiza aqui em seu projeto de estreia, aquele que indiscutivelmente é uma das melhores obras lançadas em 2019.

  • Melhores amigas e alunas fora de série, Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein) sempre focaram em tirar as melhores notas e se destacar dos demais alunos. O que nenhuma delas esperava era que seus colegas que só queriam curtir, fossem aprovados nas mesmas universidades que elas. Ao perceber que poderiam ter se divertido entre uma prova e outra, elas decidem correr atrás do prejuízo e recuperar os anos perdidos de diversão em uma única noite. A tarefa dessa vez é um pouco diferente: aproveitar ao máximo os últimos momentos do ensino médio e provar que podem ser as melhores em tudo, até mesmo quando o assunto é festa!

Nem sei por onde começo a elogiar esse filme...

Acho que nada melhor do que iniciar falando do trabalho da Olivia Wilde na direção: Numa época onde filmes dirigidos por mulheres - felizmente - estão se tornando algo comum, a atriz decidiu contar um "coming-of-age" sobre o ponto de vista feminino (assim como no ótimo "Quase 18" e no excelente "Lady Bird") e, isso é muito gratificante, já que boa parte dessas histórias sobre amadurecimento são narrados por figuras masculinas. Ao acrescentar esse elemento, acompanhamos a trama através dos olhos de Amy e Molly, co-protagonistas da obra, e pela visão de ambas do núcleo colegial, na qual Wilde retrata de forma energética e quase psicodélica, algo que se perpetua pelo decorrer da narrativa. 

O Tom é muito mais onírico e alucinógeno, apresentando uma sequência bem psicodélica no segundo-ato que é impagável pela criatividade e hilária. Aliás, essa é outra qualidade do filme, o humor é maravilhoso, com uma constante intercalação entre o situacional (presente na brilhante cena do carro) e verbal, pelos termos e interações carregadas de risibilidade. Há exageros quando, na tentativa desesperada de ser engraçado, a narrativa insere alguns esteriótipos forçados que não encaixam e soam cartunescos. 

Logicamente, há clichês no contorno narrativo, mas geralmente são bem-introduzidos e cativantes, além da destreza do roteiro (escrito por Katie Silberman, outra grande revelação) de quebrar algumas convenções do subgênero - especialmente nos brilhantes 5 minutos finais - surpreendendo o espectador no processo. Outra virtude é como o texto desenvolve os dramas da adolescência: a constante necessidade de ser aceito na sociedade, de ser reconhecido é abordada com muita sutileza, nunca desnecessariamente verbalizado, mas demonstrado em cenas memoráveis (que não irei citar, pois na empolgação, descrevi diversos momentos nos outros parágrafos) e esse é só um de vários temas abordados com muita elegância que também fala sobre insegurança e atitude entre outros.

Mas o que se destaca no roteiro são os Diálogos: As conversas repletas de palavrões entre Amy e Molly nunca ficam cansativas pela criatividade das suas interações, repletas de bom humor e jocosidade, as "piadas" e reações humorísticas funcionam perfeitamente. A Narrativa é fluida, com um ritmo alucinante e ágil. A direção de Wilde é muito eficiente na ornamentação visual: Os movimentos de câmera são precisos, especialmente na forma como acompanham as protagonistas pelo cenário e há uma sequência - prometo, essa é a última - no terceiro ato envolvendo uma discussão onde a câmera intercala entre o rosto de ambos os personagens da discussão. Os enquadramentos são precisos ao reforçar as emoções e sentimentos de suas figuras centrais com sutileza pura. 

O que impulsiona esse sentimento é o ótimo casting. A Beanie Feldstein e a Kaitlyn Dever foram as escolhas perfeitas para personificarem essas personagens: Além de muito carismáticas, as atrizes possuem uma química perfeita, o espectador compra a amizade e os laços afetivos de suas co-protagonistas, a relação entre elas é muito honesta. As personalidades individuais são muito bem desenvolvidas: a constante insegurança da Amy com a persona extrovertida e confiante da Molly geram momentos cinematograficamente brilhantes. A Billie Lourd e o Jason Sudeikis aparecem pouco, mas integram as cenas mais hilárias da narrativa. Já a Diana Silvers e o Skyler Gisondo servem com um único propósito no texto, sem um grande aprofundamento de suas figuras e a Molly Gordon tem uma única sequência relativamente tocante. 

"Booksmart" ou "Fora de Série" é, certamente um futuro clássico dos filmes adolescentes dessa geração, tudo graças a destreza da direção da Olivia Wilde e o cuidadoso Roteiro, que subverte suas expectativas, quebra diversos clichês comuns desse tipo de narrativa e desenvolve com uma sutileza encantadora as relações e os dramas de suas protagonistas dentro de uma narrativa eletrizante, visualmente psicodélica e encerrada com um final emocionante e surpreendente.

Pois, antes da última quebra de convenção da obra, a constatação final é exata: Mesmo apenas amigas, Molly e Amy foram feitas uma para a outra. 

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.