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Aladdin (Aladdin, 2019) - Crítica

2 semanas, 6 dias atrás - Visto 92 vezes

 

Quando Aladdin tem início, o personagem de Will Smith que (SPOILER) é o gênio da lâmpada, contando uma história aos seus filhos entoa versos introdutórios totalmente novos para cair na já clássica canção “A Noite da Arábia”. Saímos do seu barco direto para a noite de Ágrabah, com uma empolgante sequência de tracking shots seguindo o macaquinho Abu.

 

É uma pena que esse fascínio se extinga logo na cena seguinte, quando conhecemos o reino durante o dia. Por mais incrível que isso possa parecer, o filme tenta ser mais vivo que o original (uma animação) e espalha cores sem propósito por todos os lados. Laranjas, verdes, roxos, vermelhos, tudo isso se vê nas humildes (ou deveriam ser) ruas de Ágrabah e nos excessivamente ornamentados figurinos do povo. À distância, haveria uma certa beleza, não fosse a computação gráfica fraca que permeia todo o longa. Toda essa breguice dificulta um pouco o engajamento com a atmosfera do filme, que, principalmente na primeira metade, dosa a todo tempo a importância de alguns momentos novos, tentando demonstrar uma personalidade que acaba não sendo positiva.

 

O mau gosto só aumenta quando somos apresentados à figura do vilão Jafar (Marwan Kenzari). Ao passo que as ambientações e as roupas se esforçam ao máximo para ser fiéis ao filme de 1992, o ator dentro delas falha quase que completamente nas nuances de seu personagem. Injustificadamente jovem e de voz baixa e aguda, o Jafar desse filme passa mais perto do constrangedor que da malignidade que o papagaio Iago utilizava como alcunha para ele no filme original.

 

Iago, aliás, assim como Abu, é descaradamente diminuído pelo roteiro, em uma abordagem mais realista que só existe nesse aspecto do filme. A perspicácia dos dois, cada um à sua maneira, é reduzida à de um animal qualquer. Não há o característico sarcasmo do papagaio, enquanto a molequice do macaco é transformada num pobre macete narrativo usado toda vez que alguém precisa roubar um mcguffin para que a história ande.

 

São apresentados alguns personagens novos, como Dália (Nasim Pedrad), fiel conselheira da princesa Jasmine e o Príncipe Anders (Billy Magnussen). Ambos não acrescentam grandes camadas à narrativa, mas há uma disparidade no nível de propósito que cada um tem para estar no filme. Ela, garante bons momentos de humor e serve para fechar um ciclo, enquanto ele não passa de um alívio cômico ruim e facilmente esquecível.

 

Mena Massoud como Aladdin não faz um trabalho ruim, evidenciando com facilidade o lado ‘ladrão de coração bom’ do personagem e trazendo até um certo carisma, o que torna positivo o saldo de seu trabalho. Contudo, a timidez charmosa que é uma das mais marcantes nuances do personagem original fica totalmente de fora.

 

Em contrapartida a tudo isso, não se pode dizer que Aladdin é um filme sem qualidades. Guy Richie, apesar de não ser muito habilidoso na gerência de alguns diálogos, faz um bom trabalho de direção na maior parte do tempo, e conduz sem dificuldades a trama. Os maneirismos pelos quais o diretor ficou conhecido são bem dosados e somente aparecem nos momentos oportunos. Tem cena boa de perseguição, câmera lenta bem utilizada e toda a fantasia dos números musicais funciona bem.

 

Números esses que são parte importante de uma cuidadosa atualização que o filme apresenta. Existem necessárias mudanças no conceito de alguns personagens, atualizações em algumas músicas, e coreografias muito bem-feitas que dinamizam uma película mais longa que a animação clássica.

 

Nesse ponto retomamos Will Smith para dizer que o que ele faz não é menos do que erguer o filme. A partir do momento em que ele aparece tudo se torna mais interessante e engraçado, o Gênio esbanja todo o seu carisma e consegue reproduzir fielmente em live-action tudo que o saudoso Robin Williams trouxe na animação, fazendo um personagem tão bom quanto. Além disso, são acrescentadas novas camadas, que o ator desenvolve muito bem. Como se não fosse o bastante, vem com ele um elemento discreto e inusitado que funciona perfeitamente bem, um elemento hip-hop que se reflete nos novos arranjos e nas letras de algumas músicas que cumuladas com as coreografias dão a identidade almejada por alguns momentos menos gloriosos do filme.

 

Também cabe destacar, que Will Smith é o principal, mas não o único elemento que carrega a comicidade do filme. Esse elemento está bem mais presente aqui do que na animação e, salvas algumas exceções, funciona muito bem, oferecendo alguns dos momentos mais engraçados desses personagens.

 

Por fim, não há como falar desse filme sem mencionar Naomi Scott e o trabalho competente que ela faz com a Jasmine. Já é a melhor coisa do filme a abordagem da princesa como uma mulher forte e decidida, que não aceita ordens que vão contra o que ela acredita, e a atriz entrega uma performance digna dessa responsabilidade. A personagem tem mais destaque, tem mais camadas, mais tempo em tela e protagoniza os melhores momentos musicais do filme, tudo feito de maneira notável. Em meio a um Rajar de CGI pior que o Richard Parker (As Aventuras de Pi) feito em 2012, e um Sultão que não consegue passar sua característica bondade intrínseca no olhar, o destaque dela se torna muito claro.

 

Aladdin tem algumas coisas para adorar e muitas para odiar. Há coisas do original que são repetidas e funcionam novamente e há um frescor na renovação pensada para essa versão. Somando isso às ótimas performances de Will Smith e Naomi Scott, a balança fica equilibrada com a abundância de defeitos que esse filme tem.

Nota: ⭐⭐1/2

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Sobre o Autor

Breno

Colaborador, crítico de filmes.

Baiano de alma, apaixonado pelas artes, cinéfilo kubrickiano, músico beatlemaníaco, louco do bando e estudante de Direito nas horas vagas.