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Game of Thrones: Especial – Parte 3 (8° Temporada, 2011-2019) – Critica

3 meses, 4 semanas atrás - Visto 85 vezes

 ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR ESTÁ LOTADO DE SPOILERS
 
Drogon queimando o trono de ferro é quase uma alegoria ao que essa temporada fez com o legado da série na história da TV, construído ao longo de 9 anos. A jornada dos vários personagens complexos que aprendemos a gostar durante todo esse tempo é descontruída repentinamente em poucos episódios a troco da surpresa da reviravolta. A desconstrução da fantasia clássica, na qual o jogo dos tronos nos conquistou por saber como subverter as convenções do gênero de forma inteligente, na verdade, estava escondida desde o início e agora é revelada somente para alimentar fan-service, porque nem ser usada no desfecho ela foi. Porque não convém, só interessava aos roteiristas acabar a série, independente da coerência ou não de como isso iria acontecer.
 
 
Sendo justo, a temporada começa até bem como normalmente Game of Thrones começa, organizando o tabuleiro de intrigas de forma muito fluida, objetiva e promissora. A diferença é que antes não tinha um norte tão claro para os acontecimentos como a série passou a ter a partir da 6° temporada, mas não importa, nesse sentido, a série nunca vacilou e começou bem também nessa temporada, mesmo que com cenas gratuitas de fã service, como é a constrangedora sequência do voo romântico entre os dragões e “Jonarys”, fora isso, cada núcleo é muito bem direcionado e o roteiro ainda deixa um pequeno espaço para se preocupar com fatores externos extra guerra, ajudando a desdenhar de forma ainda melhor os finais conflitos internos antes do confronto decisivo tão aguardado.
 
Contudo, de pouco adianta essa preparação, pois, tudo é resolvido em pouquíssimas cenas para adentrar na “calma antes da tempestade”, o último momento de interação entre os personagens, os diálogos para com as mudanças. Aí está o problema, os diálogos, sem qualquer inspiração na elaboração, perdidos e apelando para uma nostalgia constante e artificial. As cenas só acontecem, não nas cenas boas existe timing, como é o caso da nomeação da Brianne como uma “Cavaleira dos 7 reinos”, eles decidem que deve ser feito ali e é isso, o mesmo vale para o confronto entre Sansa e Daenerys ou a grande revelação do Jon para com a Dany, não existe extração do sentimento momentâneo, tudo é apenas falado de forma pobre e sem verossimilhança.
 
 
E como se não bastasse falhar na construção de uma despedida para esses personagens, ela se torna inútil por não desfazer de ninguém por pura conveniência. A longa noite não passa de um longo episódio ilegível visualmente pela preguiça de construir algo ao menos estrategicamente logico. O problema não é nem ela se passar a noite, até por que é uma decisão obvia pelo titulo e para esconder possível fragilidades visual, algo visto antes em “Blackwater” na 2° temporada só que numa escala maior, mas ali ao menos era conduzido com mais clareza, sem uma caótica incontrolável como essa. É até legal no início você esconder a ameaça e engrandecê-la matando todos os Dothraki apenas com a sugestão, mas é ilógico porque se torna um sacrifício inútil diante de uma investida de frente para com mortos que os próprios personagens sabem que não morrem.
 
A estratégia é ignorada a ponto de a Melisandre ter de armá-los para o suicídio, além de conseguir na última hora criar uma barreira de fogo temporária para a investida de zumbis enquanto Jon e Dany não faziam nem o reconhecimento da batalha, estando a disposição de Dragões do seu lado para facilitar a vida da feiticeira. Investida de zumbis geograficamente fatal a todos os personagens, menos os que importam porque eles não podem morrer para o roteiro, não interessando nem mostrar como eles escapam daquilo, eles só escapam por ter que escapar. Pior ainda é os próprios protagonistas saberem que o senso de periculosidade não os atinge, rodeados de zumbis em determinados momentos, não há nem uma criação de tensão daquilo, pois em um o milagroso e previsível deus ex máquina Sr. Jorah aparece para ser uma morte conveniente para o futuro da virada de Daenerys e os zumbis convenientemente vem de um a um no Jon Snow em vez de dar a mesma investida inicial feita antes, sem contar que ambos estavam naquela situação por pura displicência.
 
 
Nem os fãs services acertam, o grande encontro épico entre os dragões volta a se encaixar na confusão visual, planos muito fechados em meio a escuridão na nevasca com uma camera balançante retira qualquer senso de grandiosidade a ela. Reside na Arya os únicos resquícios de algo empolgante por ser a única personagem mais preparada de fato para a imprevisibilidade de lutar contra os mortos. Contudo, em um determinado momento a serie relembra um momento pequeno entre ela e Melisandre lá atrás na série, fazendo um espelhamento direto com a situação atual, a verborragia junto com o close-up nos olhos azuis do zumbi, já entregam a solução final de bandeja até para os mais desapercebidos. A surpresa de ser ela é boa, mas ela se torna previsível dentro do próprio episódio e poderia ter sido executado de forma mais sutil, através de um prenuncio aproveitando a morte impactante da Lady Lyanna Mormont diante do gigante zumbi, mas sem deixar de matá-lo também junto. Se a serie tivesse a mesma coragem de antes, teria feito o mesmo com a Arya sem entregar o simbolismo na cena anterior e seria uma cena muito mais emblemática, do que foi a seca entregue.
 
Resolvido o primeiro arco pendente na temporada e o teoricamente principal da série toda em um episódio, era hora de partir para a outra pendência: A guerra dos tronos. Nessa, não havia muitas surpresas a se esperar, ou a serie assumia a fantasia clássica ou tentaria subverter de algum jeito forçado e ela opta pelo pior caminho da pior forma possível. Em dois episódios é plantada uma nova jornada da Daenerys com o intuito apenas de surpreender, ignorando completamente a lógica de tudo construído para ela até então. A personagem nunca demostrou ir para esse caminho, ela podia até ser controlada de atitudes mais tiranas, mas fazia parte do arco para ela realmente aprender o significado de ser rainha e chegar lá preparada, ela fecha esse ciclo quando se vira sozinha na 6° temporada, passando por desafios muito maiores e superando todos eles com empoderamento e inteligência dentro do comum das atitudes no jogo dos tronos. A morte na série sempre foi tratada como algo dramaticamente justificável, direcionar ela como uma forma tirana so por parte da Dany desde da serie inteira, é ignorar o fato de que o herói das neves matou ao todo mais pessoas que ela e também executou todos aqueles que o trariam e até o mataram.
 
 
Ela só começa a ser tratada assim de falo quando chega no Norte, pois é onde teoricamente se inicia a desconstrução do heroísmo, mas é feito de maneira completamente ilógica. Lá ela conhece John Snow, já admirado pelo povo dele por tudo que ele tinha construído assim como ela no outro continente. Passando duas semanas com direito a romance estabelecida, ela ficar com ciúmes da falta de admiração do povo com ela e mais para ele, sendo que ela nem tinha dado real motivo, assim como nas temporadas anteriores, para que o povo possa admirá-la também. Mas não, ela se sente traída por atitudes dos conselheiros que teoricamente querem o mesmo bem que ela, acabar com a tirania em Westeros. E ainda assim, mesmo depois do inimigo rendido, por vingança barata de percas que ela mesmo causou pelas conveniências de roteiro, decide dizimar Porto Real a troco de virá uma vilã para proporcionar o final novelesco digno do título “As Crônicas de Gelo e Fogo”, onde os opostos se atraem, mas só um pode prevalecer.
 
E é claro que essa escolha não será a mulher desafiadora dos costumes de sua família, conquistadora de poder pelo próprio mérito e empoderada como digna do trono, não, ela já não tinha perdido esse posto oficialmente antes para o “destino” para John Snow. Que no fim também nem é usado, para adotar um caráter imparcial desnecessário se faz o clichê por que não o assumir para ao menos torná-lo coerente? Se ele sempre foi destinado a assumir o trono e não ter chegado longe a mérito próprio, porque ele nem o cumpre? Porque de novo a serie quer surpreender sendo neutra, literalmente, ao botar o único personagem sem proposito claro até então, para assumir o posto no lugar e ainda carregar o nome dos mocinhos pintados no início da série. Enquanto o Jon volta a patrulha da noite, justamente onde tudo começou, ou seja, fechando o ciclo no sentido mais literal da palavra indo e voltando para o mesmo ponto de partida, por que sim.

É uma regra que vale basicamente para todos os personagens, com a possível exceção da Sansa que cumpriu o que prometeu quando não ia dobrar o joelho diante de outro rei, mesmo que da própria família, se tornando a rainha do norte com muita justiça e fechando bem o arco. Os demais vivos ou mortos fecham negando todo o desenvolvimento deles até ali, ou no mínimo estagnados onde pararam anteriormente. É o Jaime negando a importância pelo povo e indo morrer abraçado nos escombros com o incesto que estava a 6° temporadas querendo negar. É a Cersei desesperada sem plano B não ter executado a Daenerys ou o Tyrion quando tinha oportunidade, mesmo não tendo motivo para não fazer. É a Arya negando a vingança e querendo se tornar uma salvadora sendo que ela já tinha sido uma, voltando a viver aventuras mundo a fora sendo que ela so viveu para poder voltar para o norte mais madura. É a Brianne se rendendo ao romance clichê de uma amizade bem estabelecida. É o Tyrion fechando arco da mesma maneira que estava pós julgamento, ao menos voltando a usar a inteligência e rendendo bons momentos, algo que desde a sétima eram apenas uma sucessiva de decisões erradas.
 

Ainda que tenha seus momentos mais inspirados em sequencias isoladas, elas vêm todas de um mérito técnico obrigatório para uma super produção do porte orçamentário de Game of Thrones, o que tornam elas sem efeito diante de todo um resto mal elaborado nos demais aspectos. Fato é que esse final não podia fazer milagre, ele já estava fadado a decepção em diferentes níveis dentro do que poderia entregar de diferente e a depender de como estavam as expectativas de cada um. Um consenso que pode se chegar através disso é que para qualquer caminho trilhado, a jornada merecia mais do que foi feito. O fenômeno cultura se despede através de uma dolorosa decrescente da retirada de sua essência, não importa se um dia foi bom, o próprio legado para a última temporada, não valeu de nada a ser construído.

Nota: ⭐⭐

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