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O Grande Truque (The Prestige, 2006) - Crítica

2 semanas atrás - Visto 39 vezes

Certos momentos, me encontro com uma dúvida constante em minha mente: Por que eu gosto tanto de arte? Onde vem essa minha paixão por cinema, literatura, música? A resposta: a arte é uma das poucas criações humanas que geram o senso de deslumbramento. Sabe quando você escuta uma boa música e se sente tranquilo? Quando lê um livro e se envolve com a história? Ou, quando vê um filme e se arrepia? É o efeito que o artista quer passar no seu público, a principal intenção artisitica é mexer com seus sentimentos, maravilhar os espectadores.

  • É nessa linha narrativa que se estabelece a história de O Grande Truque: No século 19, em Londres, dois amigos ilusionistas e mágicos, Alfred Borden e Rupert Angier, acabam construindo uma rivalidade, uma batalha por supremacia, que se estende ao longo dos anos e que se transforma em obsessão, cujos resultados serão inevitavelmente trágicos.

(Esse é o máximo que posso revelar sobre a trama, quanto menos vocês souberem, melhor. Esse é um filme cuja a surpresa é o melhor elemento).

Muitos podem reclamar dos roteiros dos filmes de Christopher Nolan, mas algo que ninguém pode tecer críticas a respeito dele, é o seu controle na direção, e mais uma vez, o diretor nos oferece uma obra tecnicamente fascinante: o Jogo de Câmera é cuidadoso ao se deslocar pelo cenário, com uma exímia atenção aos detalhes do ambiente, os enquadramentos são belos, valorizando o maravilhoso trabalho visual feito aqui.

A Cinematografia cria uma atmosfera enigmática, o uso da luz, especialmente nas cenas das apresentações no palco, oferecendo uma mística ao universo do ilusionismo da obra, o uso de tons bege e azul ajuda a transportar o espectador para aquela realidade, o Design de Produção e o Figurino realçam essa reprodução do século 19.

O roteiro, escrito por Christopher Nolan ao lado de seu irmão, Jonathan Nolan é astuto ao intercalar duas linhas temporais (uma no presente e outra no passado), criando uma experiência complexa e sem nunca perder a atenção de seu espectador. Cada elemento e informação apresentado na narrativa serve a um propósito, nada está de graça aqui. A trama central é muito envolvente, traçando uma simbologia com a rivalidade de figuras históricas como Mozart e Sallieri ou Thomas Edison e Nicola Tesla (esse último é mostrado de relance na obra).

Outra qualidade do roteiro é a forma como Christopher e Jonathan fazem um inteligente paralelo com a mágica e a tecnologia (“ Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica”, como já dizia Arthur C. Clarke). Mas o destaque de O Grande Truque é o subtexto sobre o poder da arte e o esforço do artista, utilzando esse universo do ilusionismo como plano de fundo.

Em certo momento da narrativa, o personagem do Michael Caine explica para uma criança, os três atos de um truque de mágica. Para aqueles que possuem um bom conhecimento da sétima arte, não é muito difícil de reconhecer que Jonathan e Christopher estão se referindo a estrutura cinematográfica de 3 atos (apresentação, desenvolvimento e conclusão). Em outro momento, vemos o personagem de Hugh Jackman recebendo os aplausos sem que os espectadores vejam.

Essa é uma simbologia mais aberta, de acordo com minha interpretação, compreendo que seja uma referência sutil a uma obra que alcança um enorme sucesso embora o público nem sequer saiba - ou tenha interesse em saber - quem está por trás da mesma. Os Diálogos sofrem um pouco com exagero de exposição do texto (talvez esse seja o filme do Nolan que mais sofra com isso), mas oferece interações muito inteligentes que inserem mais peças do quebra-cabeça.

Outra virtude da obra é o elenco: O Hugh Jackman e o Christian Bale estão perfeitos como dois lados antagônicos, onde não há um correto ou errado, além de ambos expressarem muito bem os dramas de seus personagens. Merece destaque também o Michael Caine, Rebecca Hall e o David Bowie, com coadjuvantes profundos que acrescentam muito a narrativa.

ATENÇÃO: O Trecho a seguir contém Spoilers

E chegamos ao encerramento de O Grande Truque, onde Nolan surpreende os espectador com duas grandes revelações: a primeira é que Angier ainda estava vivo, graças a tecnologia criada por Tesla, que duplicava a pessoa. E a outra era que Alfred não foi preso e morto, quem ficom em sua posição, foi seu sósia que era, na verdade, seu irmão gêmeo. É uma revelação meio que anunciada. Em diversos momentos da narrativa, o roteiro deixa algumas pistas que soaram óbvias ao meu ver, me fazendo desvendar o “grande truque” de Christopher e Jonathan Nolan. Porém, a revelação não deixa de ser genial, especialmente para quem não conseguiu perceber as dicas inseridas durante a obra.

Em resumo, O Grande Truque é mais um excelente trabalho da invejável carreira de Christopher Nolan, com um roteiro astuto na forma como desenvolve o quebra-cabeça de sua narrativa e como constrói um excelente subtexto sobre arte/artista. E o último take do filme é uma verdadeira ostentação de genialidade, com uma frase que provavelmente vai permear minha mente por um bom tempo.

… o público quer ser enganado

Nota: ★★★★★

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Sobre o Autor

João

Colaborador, analista de filmes.